15 janeiro 2012

Requiem

Sempre se sentiu um ser à parte?
Oiça: neste momento você está aí e eu estou aqui; também me sinto à parte. Sempre estive à parte, quer no Morvan, quer aqui em sua casa.
Mas terá havido momentos em que não se sentiu à parte?
Não.
Nunca? Durante toda a sua vida?
Nunca.
Até mesmo, sei lá!... quando estava com alguém, mesmo durante o amor? Acha que o homem está sempre só?
O homem, não sei; não quero generalizar. Mas eu, sim.
E isso angustia-o?
Nada. Eu ficaria angustiado se acaso não existisse distância entre si e mim.
E como poderemos aproximar-nos de outro ser?
Prefiro não me aproximar.
Prefere manter sempre uma distância?
Ah, prefiro!
Mas porquê?
E você, não prefere manter uma distância?
Nem sempre.
E porquê?
Porque gosto da experiência de estar com alguém, estar misturado com alguém.
Pois olhe que eu não.
Não será também esse o jogo que se joga, de certa forma, nas suas peças?
A última peça que eu escrevi tem trinta anos. Está a falar-me de uma coisa que eu apaguei por completo da memória: o teatro.

Entrevista a Jean Genet, por Nigel Williams

16 dezembro 2011

Fake Plastic Trees

Estou cansado de viver num mundo onde mais facilmente se mente, só porque sim, do que se diz uma verdade. Estou cansado de um mundo falso onde nada é o que é.
Onde as ilusões não se tornam recordações, mas em que as recordações afinal são simples ilusões.
O mundo de ser não sendo. Um mundo de ver não vendo.
De amar não sentindo e de sentir não amando.
Só porque sim.
Porque se diz que sim.
Porque eles dizem que sim.
Estou farto dos eles que nem sei quem são.
Estou farto que as pessoas não vivam para si.
Estou farto desse mundo que diz e que julga e não nos deixa existir.

Farto de estar farto do que existe em mim
e fora.
Farto da rotina diferente que todos os dias crio

e de depositar esperanças naquilo que ameaça estar a chegar.
Estou farto de ser o azeite num mundo que é essencialmente água.

(tu és bolor e já não me preocupo nem afecto)


Tenho saudades de ser, se é que alguma vez fui.

30 novembro 2011

Life in a glass house

Uma parte de mim,
adormecida, a doer,
desperta toda a alegria
que tento esquecer.

De verdade, inesgotável
é o querer
como algo que me chama,
a rir, para o sofrer.

Sentimento que pensa a chorar,
sonho de ter e não pensar.
Pensamento de sentir
sem qualquer vestígio de ruir.

O ser que é e não se mexe,
sentimento que dói mas não desce.
A vontade de ter e de sentir
conjugada com a procura do sorrir.

Uma procura que dói.
Uma verdade que mente,
sentida por alguém que vê
o que outro alguém não sente.