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30 novembro 2011

Life in a glass house

Uma parte de mim,
adormecida, a doer,
desperta toda a alegria
que tento esquecer.

De verdade, inesgotável
é o querer
como algo que me chama,
a rir, para o sofrer.

Sentimento que pensa a chorar,
sonho de ter e não pensar.
Pensamento de sentir
sem qualquer vestígio de ruir.

O ser que é e não se mexe,
sentimento que dói mas não desce.
A vontade de ter e de sentir
conjugada com a procura do sorrir.

Uma procura que dói.
Uma verdade que mente,
sentida por alguém que vê
o que outro alguém não sente.

22 outubro 2011

Lotus Flower

e foi mais um esforço dele para pertencer a um mundo que sabia previamente não o reparar.
de encontrar uma luz num vazio coberto de efeitos e sons ao qual não pertence.
uma esperança despedaçada por cínicos delitos de ser o que não se é, segredados por alguém que é aquilo que não assume sempre ter sido.

É assim que se perdem aquelas estrelas que julgamos irem brilhar para sempre
e assim também que se confunde o chão sonhado daquele que efectivamente se pisa.

Espelhos estilhaçados
com reflexos de ilusões mórbidas:
mascaras de um amor incauto

dizendo "olá"
como quem diz um
"adeus, até um dia"
que pressente
eternamente por chegar.

a procura de alguém que sabe nunca encontrar,
porque encontros imediatos são estrelas que
facilmente mudam de lugar
confundindo-nos de posições consoante o sítio
onde acreditamos vir a estar.

Constelações inconsteláveis,
inconstantes,
improváveis.
imaginadas num sonho nocturno que está desperto
destinado a rumar alguém que luta para não ser incerto;

ao invés de esperar não procurando
aquele que o saudará sorrindo
mesmo não estando perto

"Eu gosto de ti"
diz,
julgando-se certo daquilo que sente.
"Eu amo-te"
diz a estrela,
capaz de dizer somente
aquilo que a sua essência sente.

30 maio 2011

Home

A casa continua aqui
Não se moveu,
não cresceu
não esqueceu nada
Do que fizeste,
do que fizemos,
do que jurámos um dia fazer

Arrasto, desgastados, os pés
neste tumulto
Arrasto-me
por entre corredores magoados,
matando sonhos que recordam
ecos de risos ocos trancados

Perco-me nas portas
das conversas solitárias,
lembrando aquelas partilhadas
um dia, nas varandas imaginárias

Vivo nos nossos recônditos,
debaixo do seu resguardo
Tenho medo da solidão
que solta o choro que prendo calado

Vivo contigo
mesmo que não vivas em mim

Exactamente
na mesma casa,
a nossa casa,
a casa que nos deu um fim.

15 dezembro 2010

Still crazy after all these years

depois de tudo...
a rua não ficou mais nua
as nuvéns não ficaram mais negras
o sol não se pintou de cinzas
a casa não mudou de lugar
a minha casa continua colada à tua

depois de tudo...
eu não sei mais de ti
porque agora as paredes perderam os sentidos
e eu não tenho outra forma de te ouvir
sentir
tocar
ver...
amar

tudo é eterno enquanto dura
e tu foste para sempre
enquanto quiseste ser

depois de tudo...
a rua continua a encher-se de multidões
a tua banheira continua a aquecer dois corpos ao mesmo tempo
o casaco que eu te dei
é o mesmo
exactamente o mesmo
tudo é exactamente igual
eu tu... já não importa
para mim já nada importa


depois de tudo...
eu continuo a mentir
quando não olho para ti
e tu continuas a mentir
quando olhas para mim

depois de tudo...
tudo ficou igual
igual a qualquer coisa diferente de Nós (.)

26 novembro 2010

Mr. Cellophane

Transparente.
E que mais? nada.
Não deixo pegadas no chão que piso.
Sou um corpo de alma apagada.

Translúcido. com falta de lucidez.
Passo despercebido no meio da multidão.
Verdadeiro, com falta de verdade.
Encarnação dos reais e dos que dizem que são.

Não sou vampiro mas o espelho não me mostra.
Sou real, mas o mundo não me sente.
Sou a dor de um fantasma usado,
que vive neste mundo demente.

Transparente.
E que mais? nada.
existo numa qualquer dimensão trocada.

22 junho 2010

Capitão Romance

Sou capitão do meu barco
de piratas e de salvadores
Capitão do mar e do céu,
da terra, mundo e arredores.
Capitão de vontades e desejos,
de tristezas, formigas, moscas
e percevejos.
Capitão das casas e das ruas,
das aldeias e das cidades.
Capitão de formas, matérias,
estruturas e gruas, capitão de
reformas, ordenados, impostos
e pagamentos adiantados
(ou atrasados).
Capitão da verdade e da mentira,
da mente e do corpo, da beleza,
do amor, do cinismo, do medo
e da obscuridade.
Capitão das faltas, morais, amizades,
das falsidades e da sinceridade.
Capitão dos sonhos sonhados
dos sonhos vividos
das vivências sonhadas. Das
memórias, dos relógios, ponteiros,
do tempo. (De um tempo que não é meu
e que ao mesmo tempo, sendo nosso,
acaba por não ser de ninguém.)
Sou Capitão do meu barco enorme que não possuo.
Capitão da humanidade
dos animais,
das vacas mimosa
das vacas de quatro patas
das vacas de duas patas que falam
das vacas que gostam de vacas
daquelas que riem
e daquelas que seduzem os bois.
Sou capitão das vacas porque sou uma vaca
uma vaca que muge tudo o que pensa e que
por isso
é má-mugidora.

Sou capitão.
Capitão dos capitães
e daqueles que um dia o serão.
Capitão da palma da minha mão,
capitão do que digo, do que escrevo
do que penso.
Capitão da minha mente,
mente essa que possui um mundo,
no qual vivo,
e no qual sou Capitão.
Capitão de tudo o que lá exista.
E escrevo tudo aqui neste espaço,
porque é o meu, porque sou capitão.
Sou capitão do Romance,
do verso

branco
e das palavras,
embora ninguém acredite no que elas são.
A vida e a morte são minhas servas,
por isso, façam continência ao Capitão!
Não que elas o sejam mesmo,
mas só porque eu digo que o são.

Leste isto também,
embora não sejas meu subordinado
(nem eu teu Capitão)
Porque o primeiro passo para se ser alguma coisa,
é ter vontade
lutar
e acreditar
que se o é na realidade...

E este é o Conselho de quem se julga Capitão
de um mundo onde os mortos também sonharão.


28 maio 2010

Citizen Erased

Sopra.
Apaga a chama que gasta a vela.
Apaga-me.
Apaga o meu desejo
que nos gasta a nós.

Apaga o mundo há nossa volta,
apaga a minha necessidade de o explorar.
Apaga os continentes e os mares,
apaga a distância
para ela não nos separar.

Apaga tudo.
Deixa-nos apenas a nós.
Porque embora não estejas
apagado em mim, o resto do mundo parece
a paisagem perfeita para ser desenhada.

O meu desenho é diferente do teu.
Porque
Eu não sou,
Nem quero ser,
A tua imagem até morrer.

Está escuro agora.
Dizem que o negro é a ausência de cor.



Wash me away
Clean your body of me
Erase all the memories
They will only bring us pain
And I've seen all I'll ever need

Amo-te.
Desculpa que o mundo exista.