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15 janeiro 2012

Requiem

Sempre se sentiu um ser à parte?
Oiça: neste momento você está aí e eu estou aqui; também me sinto à parte. Sempre estive à parte, quer no Morvan, quer aqui em sua casa.
Mas terá havido momentos em que não se sentiu à parte?
Não.
Nunca? Durante toda a sua vida?
Nunca.
Até mesmo, sei lá!... quando estava com alguém, mesmo durante o amor? Acha que o homem está sempre só?
O homem, não sei; não quero generalizar. Mas eu, sim.
E isso angustia-o?
Nada. Eu ficaria angustiado se acaso não existisse distância entre si e mim.
E como poderemos aproximar-nos de outro ser?
Prefiro não me aproximar.
Prefere manter sempre uma distância?
Ah, prefiro!
Mas porquê?
E você, não prefere manter uma distância?
Nem sempre.
E porquê?
Porque gosto da experiência de estar com alguém, estar misturado com alguém.
Pois olhe que eu não.
Não será também esse o jogo que se joga, de certa forma, nas suas peças?
A última peça que eu escrevi tem trinta anos. Está a falar-me de uma coisa que eu apaguei por completo da memória: o teatro.

Entrevista a Jean Genet, por Nigel Williams

27 novembro 2011

London London

se vais tentar, vai com tudo
senão, nem sequer comeces.
se vais tentar, vai com tudo.
isso pode significar perder namoradas,
esposas, parentes, empregos
e talvez a tua cabeça.

vai com tudo.
isso pode significar ficar sem comer durante 3 ou 4 dias.
pode significar passar frio num banco de praça
pode significar cadeia, escárnio, insultos, isolamento.
o isolamento é a dádiva maior
tudo o resto é um teste da tua resistência
de quanto realmente queres fazê-lo.
e vais fazê-lo.
apesar da rejeição e dos piores infortúnios
e isso será melhor do que qualquer coisa
que possas imaginar.

se vais tentar, vai com tudo.
não há outro sentimento como esse.
ficarás sozinho com os deuses
e as noites inundar-se-ão de fogo.
fá-lo, fá-lo, fá-lo.
por todos os caminhos, por todos os caminhos.
cavalgarás a vida directamente até à gargalhada perfeita.
é essa a única luta decente que existe.

Charles Bukowski

28 junho 2011

100.

"Viver sempre também cansa!
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.
O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.
As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.
Tudo é igual, mecânico e exacto.
Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.
E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...
E obrigam-me a viver até à Morte!
Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois, achando tudo mais novo?
Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.
Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela."
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo..."

José Gomes Ferreira.

Palavras de outro que expressam melhor que as minhas o quão cansado estou do significado que o mundo deu ao viver.

27 março 2011

(just like)

O mundo tinha mudado se as pessoas não arriscassem?
Se ninguém pusesse o pé depois do limite estabelecido por sabe-se lá quem?
Não, pois não?
(eu juro que isto não é retórico).

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

A.C

20 julho 2010

Blessed be the tie that binds

"É isso que é estar vivo. Vaguear perdido numa nuvem de ignorância; andar de um lado para o outro a estilhaçar os sentimentos daqueles... daqueles que estão ao nosso lado. Gastar o tempo como se tivéssemos milhões de anos à nossa frente. Estar sempre à mercê de uma ou outra vontade egoísta. Agora já sabes - é essa a feliz existência para onde querias voltar. Ignorância e cegueira."


"Anda tão depressa. Não temos tempo de olhar uns para os outros. Eu não percebia. Tudo o que se passou e que não reparámos."


"O dia está exausto como um relógio cansado."


A Nossa Cidade, Thornthon Wilder
[Teatro Experimental de Cascais, Seg. a Sab. 21h/Dom. 16 e 21h, até 1 de Agosto]

31 maio 2010

Looking Back

Elizabeth: Why do you keep them? You should just throw them out.
Jeremy: No. No, I couldn't do that.
Elizabeth: Why not?
Jeremy: If I threw these keys away then those doors would be closed forever and that shouldn't be up to me to decide, should it?
Elizabeth: I guess I'm just looking for a reason.
Jeremy: From my observations, sometimes it's better off not knowing, and other times there's no reason to be found.
Elizabeth: Everything has a reason.
Jeremy: Hmm. It's like these pies and cakes. At the end of every night, the cheesecake and the apple pie are always completely gone. The peach cobbler and the chocolate mousse cake are nearly finished... but there's always a whole blueberry pie left untouched.
Elizabeth: So what's wrong with the blueberry pie?
Jeremy: There's nothing wrong with the blueberry pie. Just... people make other choices. You can't blame the blueberry pie, just... no one wants it.
Elizabeth: Wait! I want a piece.

Obrigado, por teres abraçado um pedaço de mim quando mais ninguém queria, quando eu era atirado fora pelas ruas e por dentro mim me achava um lixo.

Elizabeth: How do you say goodbye to someone you can't imagine living without? I didn't say goodbye. I didn't say anything. I just walked away.

Adeus... só aqui é que tenho coragem de to dizer. Embora esteja feliz por ti... custa-me tanto ver-te ir embora.

Elizabeth: When you're gone, all that is left behind are the memories you created in other people's lives or just a couple of items on a bill.

Gostava de te poder dizer que continuo atrás da tua porta à espera que a abras... De te dizer que quero ficar contigo, e assim, impedir-te de ir embora e impedir-me de me perder nas avenidas e nos becos da saudade e do mundo. Mas...

Katya: Sometimes, even if you have the keys those doors still can't be opened. Can they?
Jeremy: Even if the door is open, the person you're looking for may not be there, Katya.

...

Elizabeth: The last few days, I've been learning not to trust people and I'm glad I've failed. Sometimes we depend on other people as a mirror to define us and tell us who we are and each reflection makes me like myself a little more.

Desculpa por só ter aprendido isso agora. E por, mesmo assim, continuar um cobarde. Quem sabe se estou a tomar a decisão certa ou a cometer um horrível erro? Tenho 6 horas para perceber... ou será tarde de mais... Gostava de te ver para perceber, embora os erros tenham, por vezes, de ser cometidos, e façamos de propósito para os cometer.

Leslie: Sometimes your rhythm's off, you read the person right but still do the wrong thing.
Elizabeth: Because you trust them?
Leslie: Because you can't even trust yourself.

Eu podia ter escolhido o caminho mais rápido. Atravessava a correr e nenhum carro me acertava. O outro lado da rua está tão perto... mas hoje quero dar a volta maior e ir à passadeira. Jogar pelo seguro nunca fez mal a ninguém. E não há ninguém do outro lado que me faça correr pelo meio da estrada. Embora gostasse que fosses tu a provocar isso em mim, não acontece. Desculpa. Boa Viagem. Vai ser estranho ter-te a milhares de quilómetros de mim.

Elizabeth: It took me nearly a year to get here. It wasn't so hard to cross that street after all, it all depends on who's waiting for you on the other side.


Frases retiradas de My Blueberry Nights.

02 março 2010

A Promise

Todas as épocas são épocas de transição. Todos os dias são a transição entre o ontem e o amanhã.

Palestra sobre Tragédia Grega no Teatro Nacional D.Maria II , Jorge de Silva Melo

28 dezembro 2009

Cronófago

" Filhos com mães, pais com filhas, irmãs lésbicas, amores que não ousam dizer o seu nome, sobrinhos com avós, presos com buracos de fechadura, rainhas com touros laureados. Um filho não nascido ensombra a beleza; nascido, traz dor, divide afectos, aumenta cuidados. É rapaz: o seu crescimento é o declínio do pai, a sua juventude a inveja do pai, o seu amigo inimigo do pai... Que os liga na natureza? Um instante de cio cego. "

Ulysses, James Joyce