Estou cansado de esperar pela minha vida.
Estou saturado da sala de espera, dos números vermelhos no visor colado ao canto da sala que vão chamando - número a número - as senhas a quem é permitido viver. Nunca chega a minha. Eu sei que está quase, já esperei tanto tempo que agora é só mais um suspiro até poder ver o meu número vermelho e a permissão para soltar asas e ser feliz. Mas estou farto. Não serve de nada dizer que não, porque a verdade é que estou mesmo.
Estou farto deste vaguear, deste stand-by imbecil em que me encerrei, deste voyeurismo a que me propus até à grande estreia do meu improviso. Estou farto de ver tudo à minha volta a acontecer e eu a passar ao lado porque não é aqui que a minha epopeia começa. Estou farto de ser um narrador não participante, de falar na terceira pessoa e recordar na segunda, farto de passar páginas em vez de passar dias e de ver o meu nome no elenco adicional dos créditos.
Estou farto de dar a assistência, farto de ser o apoio ao protagonista, farto de lhe dar brilho e farto desta figuração especial sem falas chave. Farto de não mudar nada porque este filme ainda não é o meu. Farto de ser o ajudante de realização, farto de ser o assistente de encenação, farto de co-produções e de ver os outros colherem os frutos do seu êxito enquanto eu vendo os bilhetes para um filme que não é o meu.
Farto de revelar negativos que eu não tirei e farto de estar desfocado nos planos em que, involuntariamente, apareço.
Estou farto de papeis secundários, farto de assistir vidas que não são a minha, farto de escrever em vez de existir e de ouvir o fado sem o sentir. Cansado de ante-estreias, da curta-metragem, deste cenário trocado no qual o meu filme não foi escrito, farto da falta de fundos que adiam a minha produção e das burocracias que ainda tenho que terminar até o poder viver.
Saturado desta interminável passadeira vermelha, que a meus olhos já é preta, e que não me deixa chegar ao sítio onde tudo acontece. Farto desta boca de cena tão grande à minha espera e eu parado nos bastidores. Chega de sala estúdio e chega de experimental. Estou pronto para a minha estreia e já sei o suficiente para saber como quero viver.
Por favor, abram as minhas cortinas!
16 fevereiro 2012
15 janeiro 2012
Requiem
Sempre se sentiu um ser à parte?
Oiça: neste momento você está aí e eu estou aqui; também me sinto à parte. Sempre estive à parte, quer no Morvan, quer aqui em sua casa.
Mas terá havido momentos em que não se sentiu à parte?
Não.
Nunca? Durante toda a sua vida?
Nunca.
Até mesmo, sei lá!... quando estava com alguém, mesmo durante o amor? Acha que o homem está sempre só?
O homem, não sei; não quero generalizar. Mas eu, sim.
E isso angustia-o?
Nada. Eu ficaria angustiado se acaso não existisse distância entre si e mim.
E como poderemos aproximar-nos de outro ser?
Prefiro não me aproximar.
Prefere manter sempre uma distância?
Ah, prefiro!
Mas porquê?
E você, não prefere manter uma distância?
Nem sempre.
E porquê?
Porque gosto da experiência de estar com alguém, estar misturado com alguém.
Pois olhe que eu não.
Não será também esse o jogo que se joga, de certa forma, nas suas peças?
A última peça que eu escrevi tem trinta anos. Está a falar-me de uma coisa que eu apaguei por completo da memória: o teatro.
Oiça: neste momento você está aí e eu estou aqui; também me sinto à parte. Sempre estive à parte, quer no Morvan, quer aqui em sua casa.
Mas terá havido momentos em que não se sentiu à parte?
Não.
Nunca? Durante toda a sua vida?
Nunca.
Até mesmo, sei lá!... quando estava com alguém, mesmo durante o amor? Acha que o homem está sempre só?
O homem, não sei; não quero generalizar. Mas eu, sim.
E isso angustia-o?
Nada. Eu ficaria angustiado se acaso não existisse distância entre si e mim.
E como poderemos aproximar-nos de outro ser?
Prefiro não me aproximar.
Prefere manter sempre uma distância?
Ah, prefiro!
Mas porquê?
E você, não prefere manter uma distância?
Nem sempre.
E porquê?
Porque gosto da experiência de estar com alguém, estar misturado com alguém.
Pois olhe que eu não.
Não será também esse o jogo que se joga, de certa forma, nas suas peças?
A última peça que eu escrevi tem trinta anos. Está a falar-me de uma coisa que eu apaguei por completo da memória: o teatro.
Entrevista a Jean Genet, por Nigel Williams
16 dezembro 2011
Fake Plastic Trees
Estou cansado de viver num mundo onde mais facilmente se mente, só porque sim, do que se diz uma verdade. Estou cansado de um mundo falso onde nada é o que é.
Onde as ilusões não se tornam recordações, mas em que as recordações afinal são simples ilusões.
O mundo de ser não sendo. Um mundo de ver não vendo.
De amar não sentindo e de sentir não amando.
Só porque sim.
Porque se diz que sim.
Porque eles dizem que sim.
Estou farto dos eles que nem sei quem são.
Estou farto que as pessoas não vivam para si.
Estou farto desse mundo que diz e que julga e não nos deixa existir.
Farto de estar farto do que existe em mim
e fora.
Farto da rotina diferente que todos os dias crio
e de depositar esperanças naquilo que ameaça estar a chegar.
Estou farto de ser o azeite num mundo que é essencialmente água.
(tu és bolor e já não me preocupo nem afecto)
Tenho saudades de ser, se é que alguma vez fui.
Onde as ilusões não se tornam recordações, mas em que as recordações afinal são simples ilusões.
O mundo de ser não sendo. Um mundo de ver não vendo.
De amar não sentindo e de sentir não amando.
Só porque sim.
Porque se diz que sim.
Porque eles dizem que sim.
Estou farto dos eles que nem sei quem são.
Estou farto que as pessoas não vivam para si.
Estou farto desse mundo que diz e que julga e não nos deixa existir.
Farto de estar farto do que existe em mim
e fora.
Farto da rotina diferente que todos os dias crio
e de depositar esperanças naquilo que ameaça estar a chegar.
Estou farto de ser o azeite num mundo que é essencialmente água.
(tu és bolor e já não me preocupo nem afecto)
Tenho saudades de ser, se é que alguma vez fui.
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