Quero escrever mas tudo o que escrevo me parece estúpido. Estupidifiquei. A minha existência é vulgar, não marco o passo, não tenho ritmo, não passo de mais um ser humano no metro em hora de ponta, mais uma cabecinha indistinguível no meio de tantas outras. Banal. Mas na banalidade de quem?
Não sirvo para nada, sou só ar com voz que sai da minha boca porque as palavras são as mesmas que todos dizem, sou só gestos e exagerados escândalos porque o motivo, é o mesmo pelo qual todos exagerariam. Sou só mais uma fotocópia do mundo, num tamanho mais pequeno. Uma fotografia tipo passe, com quatro pelo preço de uma. É provável que já tenham visto alguém que pensaram ser eu, afinal, há tantos eu's espalhados por aí.
Sorrio da mesma maneira, choro da mesma maneira, já nem escrever minimamente consigo. Alguém acha que este texto está coerente? Sou uma pedra numa calçada, sou uma árvore numa floresta. Sou o ciclista no pelotão. Não tenho mais nada para mostrar nem para dar. Sou uma desilusão, tal como todos os seres-humanos, tal como o mundo.
Sou tão vazio, tão oco. Falta-me...
Sou o esgotado, a criatividade morta, a personalidade assassinada, a personificação do plágio, sou a arte apagada, o medo artístico, a verdade copiada. Sou eu. Sou tu. Sou o mundo. Uma marioneta. Um soldadinho. Apenas mais um entrave na máquina homicida.
Sou um quase, sou um nada. Sou feito de sonhos e faço pesadelos.
Sou a existência do desistir, e a desistência do existir.
Sou a indiferença. Sou o tanto faz.
E quando acabarem de ler isto? Vão suspirar... e vão ler mais outro texto qualquer com base no mesmo. Sou só mais alguém que escreve a reclamar com a vida e com o mundo, sou só mais um.
Mais um que diz que a vida é uma merda. Mais um que diz que queria morrer.
Só mais um.
Sem coragem para fazer o que quer.
e agora?
o mundo continua o mesmo e eu continuo aqui.
Continuamos todos aqui a viver sem querer, e a querer sem viver.
25 julho 2010
20 julho 2010
Blessed be the tie that binds
"É isso que é estar vivo. Vaguear perdido numa nuvem de ignorância; andar de um lado para o outro a estilhaçar os sentimentos daqueles... daqueles que estão ao nosso lado. Gastar o tempo como se tivéssemos milhões de anos à nossa frente. Estar sempre à mercê de uma ou outra vontade egoísta. Agora já sabes - é essa a feliz existência para onde querias voltar. Ignorância e cegueira."
"Anda tão depressa. Não temos tempo de olhar uns para os outros. Eu não percebia. Tudo o que se passou e que não reparámos."
"Anda tão depressa. Não temos tempo de olhar uns para os outros. Eu não percebia. Tudo o que se passou e que não reparámos."
"O dia está exausto como um relógio cansado."
A Nossa Cidade, Thornthon Wilder
[Teatro Experimental de Cascais, Seg. a Sab. 21h/Dom. 16 e 21h, até 1 de Agosto]
A Nossa Cidade, Thornthon Wilder
[Teatro Experimental de Cascais, Seg. a Sab. 21h/Dom. 16 e 21h, até 1 de Agosto]
07 julho 2010
Hidden Track
hoje queria dizer tanta coisa aqui. Mas escrever as coisas torna-as verdades e eu continuo o cobarde que vive na mentira. Continuo a escrever-te como te quero e não como és. continuo a escrever o que quero ser contigo, e não o que somos - e seremos - sozinhos.
continuo a utilizar um sujeito que não existe, que é omisso, e a adjectiva-lo falsamente, para me enganar. Escrevo mentiras que quero que sejam verdades.
Continuo a utilizar o plural, em frases onde apenas existem dois sujeitos singulares.
Não quero escrever. com tanta força como aquela que digo que quero sorrir.
continuo a utilizar um sujeito que não existe, que é omisso, e a adjectiva-lo falsamente, para me enganar. Escrevo mentiras que quero que sejam verdades.
Continuo a utilizar o plural, em frases onde apenas existem dois sujeitos singulares.
Não quero escrever. com tanta força como aquela que digo que quero sorrir.
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