25 julho 2011

Sounds of Silence

Vazio.
Coberto dos ecos das palavras que outrora o enchiam de canto a canto
em eternas repetições do que já foi dito
lembranças de uma vida que existia e que era partilhada
recordações de um tempo em que as coisas aconteciam e eu as deixava acontecer.
O que se ouve agora é vago, quebrando o silêncio de modo meigo, num sussurro de memória que deixa esperança.
É raro o dia em que agora, aqui, se diz algo novo. É rara a luz que ainda consegue cortar a escuridão - ela já se fortificou, coberta de cota-de-malha, permanece impenetrável e sem fugir. Não porque já se tenha dito tudo, apenas porque tem medo da infinidade de coisas que ainda tem para dizer.
E porque ninguém quer gritar para não ser ouvido - todos pregamos para que alguém oiça, até Santo António procurou peixes - quem sabe eu não vá às aves ou às pequenas larvas, a qualquer lado.
Algo
algo além destas paredes que me prendem, deste chão que me suporta e deste tecto que me tolda a visão do eterno céu. Nada reflecte a vida e o riso, mas por outro lado

como é possível reflectir aquilo que não se recebe?
não sei até que ponto vivo, ou até que ponto se deve viver. Não sei se me cultivo e até que ponto não é demais. Pergunto-me se alguém vive satisfeito, e se sim, pergunto-me porque é que tive de nascer diferente.

03 julho 2011

It's not me, it's you

Talvez eu me arrependa profundamente
talvez tudo o que eu queira seja voltar,
talvez eu não saiba ainda como o admitir
e, quem sabe, talvez seja isso que me está a matar.

Como voltar para um sítio onde nunca estivemos?
Como viver e retomar uma vida que nunca vivemos?

28 junho 2011

100.

"Viver sempre também cansa!
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.
O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.
As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.
Tudo é igual, mecânico e exacto.
Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.
E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...
E obrigam-me a viver até à Morte!
Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois, achando tudo mais novo?
Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.
Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela."
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo..."

José Gomes Ferreira.

Palavras de outro que expressam melhor que as minhas o quão cansado estou do significado que o mundo deu ao viver.